19 January 2008

Nuages Gris.



(play)






Lê,

pausadamente...




"Um dia atrasei-me...

Ao pé da montanha deixei a carruagem e, por um carreiro pedregoso que atalhava caminho, cheguei à Vila d'Este.

Na pequena torre, os quartos estavam desertos. Abri a porta do terraço e encontrei-me face a face com Liszt. Estava mudado, tinha o aspecto de quem tomara uma decisão definitiva; apertou-me a mão em silêncio e convidou-me a entrar. Entrou atrás de mim e fechou a porta à chave, depois avançou com os braços abertos e os olhos brilhantes, dizendo-me: << Sabes que não posso viver sem ti >>.

Naquela noite não jantamos, e o Sol, ao nascer, encontrou-me inclinada sobre Liszt, adormecido, contemplando avidamente a dolorosa tristeza que se reflectia no seu semblante.

Beijei aqueles lábios tão queridos, e entre sonhos devolveu-me o beijo.

Era meu.

Beijei-o de novo, e de repente assaltou-me um pensamento terrível. Era meu, pertencia-me; mas ao despertar, talvez corresse a prostrar-se aos pés de um crucifixo.

Como reconquistá-lo? Sentia-me fatigada dos últimos êxtases, esgotara todas as carícias e todas as loucuras... Que novo apaixonado amor podia inventar para depor a seus pés? Uma atroz angústia apoderou-se de mim. Sim, podia perdê-lo, ao despertar iria em busca de um sacerdote e, com o rosto na poeira, imploraria o perdão de Deus para aquele pecado de amor que no tribunal da penitência recebe os mais odiosos nomes. E absolve-lo-iam sob a condição de me esquecer.

E se o matasse?

Estendi o braço para apanhar o meu punhal, que deixara cair na véspera aos pés da cama. Abriu os olhos. Esperava as suas primeiras palavras; foram de amor. Salvara-se.

Abraçou-me com delírio e, entre beijos, murmurava promessas de amor, jurando-me que já não lutaria mais, que se me entregava por completo, e eu fazia-o repetir as suas palavras uma e outra vez.

Senti naquele momento um desejo apaixonado de prazer até ao último momento de vida."


















Querido,


Quando li estas palavras, chorei tanto... tanto por não ter sido eu capaz de as escrever, como por sentir que são tão minhas como da Condessa Olga Janina. Contudo, deixo-te um pergaminho de mágoas onde as escrevi.


Para ti.


Ao terminar a leitura, sentia-te escorrer. Tu és a água e a dolorosa tristeza que torna estas nuvens tão cinzentas, que as torna tão pesadas...





...Nuages...







Nuages Gris.







As tuas promessas de amor sempre o foram.




Um dia, ouvimos este piano ao despertar... o som, esse teu crucifixo, esse teu amor.

E eu ainda recordo...




Falaste de Liszt poucas vezes. Mas recordo-as todas, e de quão singular é a sua música, a sua vida.




No fundo, o que me dói, é sentir incessantemente o desejo apaixonado de prazer até ao último dia.






Porque só eu sei,

quando és meu,

o que Liszt fazia com as suas mãos





únicas





no piano,





é o que tu fazes com as tuas mãos





perfeitas



















no meu corpo.














Ass: The One that brought Light to your Sound.




1 comment:

Anonymous said...

Adorei o texto! Mas gostava de saber se és tu que os escreves ou não

Kiss*

Storm