19 March 2007

Carta a um pai decomposto.

Olá pai.


Bem sei não ser possível que estas palavras te cheguem. Mas mesmo assim, hoje decidi pensar em ti. Decidi mostrar-te alguns pensamentos que tenho tido, e que gostaria de te mostrar. Como fazia em pequeno...

Hoje foi o teu dia... demorei algum tempo a decidir-me. Mas penso que mereces que o faça. Não só tu, mas nós. Para o nosso bem. Sendo o teu dia, decidi recordar alguns momentos, algumas histórias, algumas alegrias e algumas mudanças. Não é isso que os filhos fazem neste dia, celebrar quem os criou? Há várias formas de manifestar, pelo menos, essa gratidão. Eu optei por abrir algumas páginas - algumas contigo, outras sem ti - e com isso escrever uma nova. A tua face branca, óssea, na escuridão, servirá de fundo para eu escrever. Antes de eu mesmo ir ao fundo.

Em toda a minha vida, olhei para ti sem perceber porque te distanciavas. Porque, desde pequeno, a solidão que me contavas ter, acabou por se tornar a minha. Acabou por se transferir das tuas palavras para o meu dia. Não sei o que se passou, nem como passou. Um dia disseste-me que tudo para ti foi uma dor, e que não querias isso para mim. E que temias um dia fazer comigo o que geralmente te sucedia quando algo não corria bem. E...

Tantas palavras.

Que ficaram por dizer.

Tantos momentos, que tu certamente gostarias de ver. Mas se os visses, eles não existiriam. Tal como estas palavras.

Estranha ambiguidade. Deixa-me algo confuso, pois não consigo imaginar-me contigo ao meu lado e ser assim, quanto mais ser assim e dizer isto contigo ao meu lado. Tu és mais feliz assim, é o que me importa. Não conseguirias sobreviver um momento que fosse a olhar para mim e ouvir-me dizer-te: tenho saudades tuas.

Porque sabes que é mentira.

A mentira leva-me ao dia em que me falaste da morte do teu pai. Foi muito difícil para ti, essa é a única verdade que vi nos teus olhos. Não porque ele fosse o teu apoio, o teu elo inquebrável e a tua segurança; mas sim porque tudo que me dizias, era o que um dia temias que eu sentisse por ti. Tudo que descrevias, era o que procuravas evitar que eu um dia pensasse de ti. Esforço vão, o teu. Mas isso tu já sabias quando me deixaste.

Contaste-me que olhavas para ele e não vias aquela pessoa essencial para a tua existência. A ele atribuíste a responsabilidade do que te tornaste. A ele querias trazer de volta para que tudo fosse normal. A ele não querias visitar porque o planeta não comporta tanta água. No fundo, não querias lidar com isso. Muito tarde o admitiste, mas muito cedo para que eu pudesse perceber. E assim, não o evitaste... acabaste por potenciar o meu sentimento. De repulsa, por vezes. Mas isso já sabias quando partiste.

Tentaste, de novo em vão, apertar-me a mão antes de me abandonares, e com isso estrangular a percepção de incompatibilidade entre nós. Sabes, eu ouvia-te falar do teu trabalho, e ficava perplexo. Como pudeste pensar que eu quereria algum dia ser como tu? Não entendes que os teus genes não têm esse Y? Sei que te esforçaste, mas não foi o suficiente. Deverias ter começado mais cedo, deverias ter tentado antes, deverias ter desistido mais tarde. Deverias.... tudo. Fizeste... nada. Conseguiste bater-me no dia em que julgaste alcançar a luz... com a desculpa de que eu não teria nenhum sucesso se olhasse para ti e para o que fazes com orgulho. Arrependeste-te momentos depois e decidiste dedicar-me uma música. Mas queres lá ver que eu ligo alguma coisa a essa tua música? Nessa altura, já me tinhas perdido.

Algo encontrei nesse dia, que a ti devo. Encontrei em mim uma capacidade de superar os sentimentos que tinha por ti. Asseguro-te, não com a vulgaridade da indiferença. Aprendi a re-direccionar o que tu me deixaste de mau para o que eu devo fazer de bom. E foi por isso que deixei aquela casa tão cedo. Porque a tua influência iria determinar que eu não vivesse sequer mais um ano, dure isso o tempo que durar.

É tão curioso... somos tão parecidos e tão distintos.

Somos diferentes mas não merecemos distinção.

Mas há algo em que te admiro.

Foi isso que me fez olhar para ti com outra perspectiva. Ensinaste-me os termos, ensinaste-me a forma, mostraste-me como se comportava, mas não me disseste onde estava. Descobri sozinho, ao ver o que deixaste para trás quando nos deixaste. Algo assim tão forte deveria ter motivos. No fundo tu sabias que isto um dia ia acontecer, que eu iria perceber onde estaria a chave para poder olhar para ti e libertar-te, o que seria a única entidade onde tu residias para sempre e onde aquilo que tu não foste capaz faria sentido: a minha mãe.

Pouco tempo antes de ela se desmoronar, disse-me o que viu em ti. Foi assim que percebi que só ela o teria visto. Porque ela é especial. Tão especial que foi capaz de te transformar. Trouxe-te do fundo do abismo para junto de si. Tornaste-a tão bela que o teu maior desgosto foi eu não ter unicamente os genes dela. Tu tens tão pouco quando colocado ao seu lado... pelo menos, foi o que sempre pensei. Estava errado. Desculpa. Enganado pela forma residual como pensava... ela mostrou-me o que tu tens de especial. Talvez por eu não ter conseguido abrir-me para ti, não tenha tido acesso a isso da forma como ela teve. Ela disse-me que se alguém fosse capaz de entrar em ti de tal forma que te ajudasse a corrigir e viver o que tu sozinho não conseguias sem por isso te abandonar, tu lhe dedicavas um amor incondicional. Disse-me que te rendias com um amor como nenhuma linguagem é capaz de verbalizar. Foi por não te ter ao seu lado para viver o que não eras capaz, que ela acabou por se desmoronar.

E eu...

e eu também, pai. Eu também...

Porque se por um lado todos os pensamentos que tinha sobre ti se dizimaram quando fui capaz de ver isso, por outro, senti-me derrotado. Não por me não teres dado isso que te torna especial... mas porque talvez eu não seja tão especial ao ponto de conseguir entrar em ti e obter esse amor. Isso dói-me tanto que me custa viver cada dia que passo sem ti.

Mas...

...há ainda uma esperança, sabes...

Porque os teus genes estão dentro de mim, e eu sei que essa dor passou para mim sem me aperceber. Começo a sentir que vives em mim. A sentir que, no fundo, eu sou como tu, e que essa forma tão especial de te entregares, é a minha forma de me render. E se esse é o teu legado, resta-me dizer-te o que me trouxe a este pensamento.


















Obrigado, pai.


















Ass: Dinis.