19 October 2007
MAM
(play)
É tudo tão lento.
É tudo...
... tão vagaroso.
Passaram 21 dias.
Continua tudo tão lento.
Permanece tudo...
... tão penoso.
Passaram 21 dias...
...e tudo é e continua
Obscuro e Doloroso.
Este é um dia difícil.
Mais um dia difícil.
Mas um dia especial.
Já não me importa se a Luminosidade te alcançará.
Já não me importa se ela será Forte, nem que a consigas ver.
Porque estou triste.
Porque estou triste?
Porque a Terra...
...já não nos separa.
Hoje,
finalmente,
desapareceste.
Estás, enfim, enrolado num lençol de lágrimas.
As últimas lágrimas que terás.
Hoje,
tristemente,
já não há esperança.
Porque num amanhã breve, precisarei delas.
Recordo-me de que, enquanto te esvaías nos penúltimos suspiros,
eu me encharcava em cegueira.
Porque nunca ninguém quer Conhecer o último.
O telefone tocou.
Chamaram-me.
Uma vida apaga-se como se apaga o teu número do meu telefone.
Vais voltar a olhar para mim.
Vais voltar a ouvir-me dizer aquelas palavras.
Vais voltar a ver-me chorar.
Mas o nome será diferente.
Naquele dia, peguei no telefone.
Marquei um número.
Marquei outro,
e outro,
até que não pude mais.
Entreguei-me.
Por mais Música que escreva,
Por mais Música que de mim extraía,
nada, nunca, irá apagar
todos os gritos,
todos os gemidos,
as vozes de desespero
até ao clamor do teu enterro.
Nunca irás conhecer
aquele que só viu a verdade nos meus olhos,
quando lhe disse que foi muito difícil para mim.
Nunca poderás pegar na mão e agradecer
àquela que obteve o meu abraço envolvente,
nem ouvir estes sons que me cobrem.
Toda a carne apodrece.
Toda a vida desaparece.
Mas nem todos os tecidos no corpo são feitos de sons.
Soubesse eu compor nessa altura,
e substituiria toda a carne morta por Música.
Soubesse eu compor nessa altura,
e teria guardado o som da tua voz.
Nunca mais a ouvi,
porque não quero.
Nem mesmo em registos dos tempos de segurança.
O meu último nome,
morreu ali.
O meu primeiro nome,
morrerá em breve.
Só eu sei como pesava.
Não o teu caixão,
mas o cruel silêncio que eu conseguia ouvir
de lá de dentro.
Eu sei que assististe a tudo,
através dos teus dedos,
tal como eu irei assistir através dos meus.
Peguei no carro,
e à falta da tua voz,
ouvi o que ouves agora.
Interminavelmente.
E para sempre.
...num amanhã breve,
irás olhar para mim.
Irás arder até às cinzas ao contemplar-me,
ao confirmar
que a cegueira e o silêncio me assolam.
Até que dia?
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