19 August 2007

Receio bissexto.



A Swarm of the SunI Fear the End
(play)


Parece que foi hoje.

Nem as feridas nas minhas mãos me parecem tão próximas.



Tão quentes.



Ao virar-me para trás, vejo as linhas que uns instantes antes convergiam para um só ponto. Parecem as cordas do que outrora tocaste, dilaceradas, derretidas por um clamor demasiado visceral para ser humano.



Mas vocês não eram humanos.



Um amor assim não existe entre nós. E ao ver-vos envoltos no abrasador abraço dessas linhas, apercebi-me de que não me virei para trás. Eu é que acabei ao contrário.


Vi fumo. Uma breve neblina branca que se desvanecia de imediato. Eram os teus passos.
Passos de quem ama.
Cada um deles, mais perto de quem amaste.

Não te perdoo isso. Nem por momentos hesitei em perdoar-te.
Acudiste-a antes de me acudir a mim.


Que raio de homem és tu? Não me passes esses genes, não os quero para nada, prefiro que corra seiva de uma orquídea morta nas minhas veias a que corra o teu sangue.


Mas tu não tens culpa.
Foi o outro que vos impediu de chegar ao ponto para o qual as linhas convergiam, de tocar o teu amor.
De me trazer para perto esse olhar disperso quando olhavas para mim. Tão disperso que deixou de me doer com o tempo.









Eu sei para onde olhavas.

Olhavas para ti, em busca do teu erro.
Mas tu não tens culpa.
Os teus pais têm.



















Ela não.



















Era o sangue dela que escorria. Tingia de vermelho as linhas brancas e a cada gota tu ficavas mais fraco.
Levantaste-lhe a cabeça, deste-lhe um abraço.
Seguiste os seus lábios e beijaste-a.
Nada mais em vosso redor importava.



Nem mesmo eu.



Ela não podia morrer hoje, era muito cedo. Tu terias que morrer antes dela.
Serias demasiado fraco para suportar isso com a dignidade dos homens.


Levantei-me.
Ao contrário dos teus, os meus passos não queimavam o asfalto.
Não esbocei o menor uivo de dor.

Foi então que ela acordou.
Eu esperava que ela fosse diferente de ti.
Mas tu não.









Nunca conseguiste entender como é que, depois de um beijo que a trouxe de novo à vida, a primeira acção que ela teve foi perguntar por mim.









Isso foi a tua sentença.
Porque eu sei o que pensaste por momentos.



Desejaste ter ficado dentro das chamas daquela amorfa mistura de metal a ter que viver com aquele momento.
Nunca te perdoaste por ter sequer esse desejo.

Aproximei-me de ambos para nos abraçarmos ao sobreviver a mais um destes dias.
Mas eu não senti o vosso aconchego.

Eu vivi tudo o que vocês passaram naquele instante em que a porta de casa se abriu e senti o sucedido.
Vivi tudo concentrado naquele segundo interminável. As vidas de nós os três.
Eu estava sentado quando o frio me cortou as mãos ao tentar mexe-las para vos tocar e sentir que não era desta que ficaria sozinho, mesmo sozinho.



















Nunca percebeste como ela perguntou por mim quando eu nem sequer estava lá.



















Talvez daqui por quatro anos eu também esteja convosco. Só então poderás confirmar se foi acaso ou sentimento.
Se lá chegares.



Parece que foi hoje.
Sim, parece que foi hoje, porque o recordo todos os dias.



Ass: Dinis