19 June 2007


(play)




O movimento parou durante o tempo em que gemias.
Tal foi o efeito, que toda a matéria ressoou na frequência que emitias.
O movimento retornou à massa e à energia - tudo vibrava com as ondas do teu gemido.

Não houve luz durante alguns instantes. Só a tua.
Não houve som durante momentos. Só o teu.
Nenhum coração bateu durante segundos. O teu, apenas.

E eu assistia a tudo isto. Assistia, através dos meus dedos.

Vibrei, contigo, sem contudo acreditar que a tinta das paredes se tinha liquefeito.
Sem crer que o gelo dos glaciares derreteu.
Sem imaginar que apenas uns dias mais tarde iria entender o que o teu calor tinha causado.

As minhas mãos percorriam o verniz que te cobria, ansiando pelos veios que me conduzam à tua essência.
Procurando prolongar para a eternidade os momentos de perfeição que atingimos.

Quando aquele gemido voou de dentro de ti, apercebi-me do que existia no meu interior.



















Nada.


















Nem uma gota de sangue.
Nem um pouco de sémen.
Nem um pouco de vida.

Apercebi-me de que tinhas levado tudo.
Finalmente, estava entregue.

Ficaste com o meu sangue no que criamos.
Ficaste com o meu sémen no que germinamos.
Ficaste com a minha vida no que te resta até ao fim do teu desmoronar.

Tu sempre me disseste o que eu nunca quis ouvir. Seria uma sensação demasiado forte ouvir dizer, à Voz que por mim geme, tanta Dor.

Tanta crueldade, tanta verdade.

Disseste-me que te fiz renascer quando ele nasceu. Uma Dor tão forte, por saber que foi nesse momento que eu comecei a queda.

Quando aquele gemido voou de dentro de ti enquanto eu descia, apercebi-me do que existia no teu interior.



















Nada.



















Nada, excepto o que eu te tinha entregue.
Asseguraste-me que ela iria perecer em ti.
A minha esperança.








Só uns dias depois me apercebi do que aconteceu.

Desta vez... não foste capaz de renascer.

Tanta tristeza, e eu sem uma lágrima para chorar nem sangue para te aquecer.
Enquanto estes dias passaram e a escuridão me abraçou, consegui ouvir-te.

Choraste, sem parar.
Ouvi os ecos daquele gemido imenso dentro do teu coração.

E li a tua resposta. O teu gemido foi tão forte, tão audaz e poderoso, que a madeira que me rodeia inscreveu as tuas palavras nos seus veios.
O meu instinto estava certo quando os meus dedos reagiram em busca de ti, como em tantos gemidos.
Foi lá que descobri que o meu abraço envolvente te acompanhará até que te desmorones.

Foi assim que senti o conforto da cal branca.

Uma suavidade que me trouxe descanso.

Um repouso que só tu trarias, no teu peito.



















Extingo-me.